
Em momentos de crise, a tendência do brasileiro é buscar, em outros países, a solução para os seus problemas. Rejeitamos olhar em volta. Resistência que se transforma em preconceito, caso se ouse mencionar a experiência de lugares distantes do Sul-Sudeste rico, industrializado e influente. Com isso, deixamos passar oportunidades de conhecer – e, quem sabe, até de copiar – modelos inovadores de administração pública.
Um bom exemplo é o Acre. Até o final da década de 90, o Estado era sinônimo de políticos corruptos, violência que beirava o sadismo, miséria absoluta e incontrolável degradação ambiental. Ao povo negava-se tudo, do prato de comida à noção fundamental de cidadania e aos valores republicanos. O desvio de verbas públicas, como atesta o Canal da Maternidade, era fato corriqueiro, aceito pela elite dirigente de então como conseqüência necessária, ou mesmo pressuposto, do ato de governar.
Ninguém imagine que o Acre se transformou, da noite para o dia, em paraíso. Paradisíacas somente a imensidão de suas densas florestas, as suas belezas naturais inexploradas, a exuberância de seus recursos hídricos, a calorosa hospitalidade dos acreanos. Lá ainda se encontram muitos dos males sociais e econômicos que atormentam o país. Mas, se o Acre-velho (ou seria Brasil-velho?) ainda resmunga, ergue-se um Acre-novo, que começa ao pregar que a pior pobreza não é aquela de empregos, de hospitais, de estradas e de escolas. A mãe de todas as misérias, hoje os acreanos sabem, é a corrupção, pois com ela se drenam os recursos públicos; com ela se vai a confiança da população nos próprios governantes e no Estado.
É algo extraordinário num Brasil ainda perdido sobre a melhor forma de combater a improbidade que insiste em contaminar os vários níveis de governo e todos os Poderes. Por isso mesmo, devemos muito aos acreanos e a uma geração de políticos genuinamente republicanos, como o governador Jorge Viana e os senadores Tião Viana e Marina Silva, para citar apenas três deles.
Com o pequenino-grande exemplo que vem do Norte, aprendemos que, na política, assim como no cotidiano privado das pessoas, existe, sim, o fundo do poço e, mais animador, que é possível dele sair. Pura negação do imaginário popular nacional, baseado na arraigada concepção cultural de que modernidade administrativa é coisa de país rico, e honestidade, uma rara iguaria ou criação de milagre ou magia. Nesse campo, mostram os acreanos, não precisa dinheiro nem força bruta, basta o voto popular para mudar corpo e alma, percepção e substância.
Contudo a maior lição que o Acre nos oferece é a de que não há incompatibilidade automática entre proteção do ambiente e crescimento econômico. Em toda a Amazônia, mas também no Brasil e no exterior, ecoa a mensagem atual dos acreanos de que a Natureza não é inimiga do progresso, nem vice-versa. À diginidade da política, os acreanos ousaram acrescentar a dignidade da floresta e de seus habitantes. Humanos ou não.
Engenheiro florestal, destaca o governador Jorge Viana que “hoje nós entendemos que é preciso cuidar da floresta com carinho e que todas as ações coordenadas e políticas de governo só se justificam se responderem positivamente à necessidade inadiável da sustentabilidade”. Não foi à toa, pois, que, enquanto em muitos cantos da Amazônia, a floresta ainda motiva vergonha e desprezo, a partir de 1998 o modelo político do Acre se autobatizou, aberta e orgulhosamente e com um certo ar de contra-cultura, de “Governo da Floresta”.
Consola saber que a mensagem de Chico Mendes deixou herdeiros. Longe de desaparecer, sua voz isolada multiplicou-se em legiões de adeptos, para finalmente de minoria virar maioria. Barbaramente assassinado pela sua coragem de pregar a proteção das bases da vida a ouvidos refratários à valorização da convivência homem/natureza, o ambientalista poderia, se vivo estivesse, exclamar: notável povo, este do Acre, que, na incerteza do destino, soube escolher o mais desconhecido e inexplorado caminho, o do paradigma da “florestania”.
Que a lição seja aprendida pelos brasileiros da Amazônia, de Rondônia ao Pará, mas tanto mais por aqueles outros que quase reduziram a pó a Mata Atlântica e hoje lançam olhos de cobiça sobre o que ainda resta do cerrado.